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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Olhos vermelhos

Vou confessar: apaixonei pela série vampiresca da escritora S. Meyer e há alguns dias consegui assistir ao último filme da série toda. Mórri de emoção no final. Marido assistiu junto, parceiro, a todos os filmes, e gostou, particularmente da cena de luta final.

Agora deixa eu explicar como foi que isso começou. Acompanha aí:

- Lá pelos idos da minha primeira licença maternidade aluguei 2 filmes na locadora pensando em assistir no final de semana em que meu marido estaria fora prestando provas de um concurso em São Paulo. Um desses filmes era "Crepúsculo". Ísis, bebezona e mamona, comportou-se muito bem e mamou-dormiu o filme inteiro enquanto eu e minha irmã mais nova, que nessa época estava morando conosco, assistíamos ao vídeo legendado e no mudo, que era regra máxima lá em casa para que o Bicho não acordasse. Neura e cansaço me definiam naquela época (e hoje também, aliás!).

- Filminho mais ou menos, nem fui atrás dos livros.

- Muitos meses depois, marido aprovado num concurso público, passou 40 dias em Brasília em Curso de Formação. Eu passei 40 dias em Joinville, sozinha, doida varrida com minha pequena no auge de suas crises respiratórias, naquele esquema enlouquecedor casa-creche-trabalho-creche-padaria-casa, naquele cansaço de cuidar dela, de mim, da casa, do trabalho, naquela recém iniciada micro revolução pessoal com muitos dilemas ainda não resolvidos, muito chororô nas noites mal dormidas, muita solidão em meio à multidão. Eu precisava relaxar de algum jeito!

- Fuçando o site de uma livraria eu me deparo com uma baita promoção da série Crepúsculo. Todos os livros sairiam por pouco mais que 1 único livro. Pensei que mal não fazia, precisava de uma leitura light para aquele momento. Parcelava em 12 vezes no cartão. Comprei.

- Todas as noites depois da Ísis dormir, e todas as madrugadas depois de atender ao seu chamado, eu me deitava, acendia a luz de cabeceira e me transportava à cinzenta Forks (que me lembrava muito a nublada Joinville). Ah, como eu queria ser a Bella! Juventude, beleza e um cheiro bom que enfeitiçou o vampiro mais gato e morno do pedaço! Sem problemas relacionados à maternidade, sem a complexidade do mundo adulto! Ah, as vantagens de ser vampira! Ser gata ao extremo, forte, não sentir cansaço ou sono, viver numa casa de vidro, ser ricaça de mórrer e ainda ter para sempre 18 anos...Gente, queria sim, queria muito. Pula a parte de beber sangue.

Estes livros me acompanharam pelos 40 dias mais difíceis, mais questionadores, mais solitários, mais bucólicos, mais tudo de louco que a maternidade já me trouxe. Os dias podiam ser muito ruins - e muitas noites também -, mas ao acender minha luz de cabeceira e abrir meus livros eu voltava a ser uma menina de 18 anos, com suas dúvidas bizonhas, suas paixonites avassaladoras, seu ar sem noção e meio bobão. Então, morro de carinho por eles. É isso. E em nome do carinho e da companhia que eles me fizeram, assisti a todos os filmes, fiquei feliz com o casal Robsten, fiquei mega triste com o lance da traição, passei a ouvir a trilha sonora repetidamente no youtube...

Contado o causo, deixo o vídeo-fofura da música tema do último filme que ficou pipocando dias na minha cabeça:


E vocês? Já tiveram, na vida adulta, paixonite por livros e filmes adolescentes ou eu sou a única mãe desse nível?

:) 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Palavrinhas II

Uma das coisas boas, entre tantas, de se ter mais de um filho é poder reviver aquelas fases fofas dos bebês. A fase das palavrinhas bonitinhas é das que mais tenho saudades da época bebezês da minha mais velha.

Agora chegou a vez do Pedro, no auge de seus quase 16 meses, deslanchar naquelas palavrinhas engraçadas e que só mesmo os pais (e muitas vezes nem nós mesmos) conseguem entender. Vamos ver?

- mamã: mamar e diz apontando o único peito em que aceita mamar com o dedo indicador
- meinmein ou mãmein: euzinha, a mamãe
- mãmá: a mana idolatrada salve salve
- papá nhannhan: comida
- papá ou papáiiii: é ele, o papai
- biiiiii: abrir
- êmeeeeeu: é meu, dito várias vezes ao dia quando não quer que a gente tire algo dele
- bobô: acabou, dito com a palma das mãos para cima
- áua: água, pede muitas vezes ao dia, mas na maioria é para derrubar a água no chão e depois lamber ali, no piso (#anticorposamovocês)
- uau-uau: são os cachorrinhos, mas também pode ser qualquer coisa que ele queira apontar mas não sabe o nome, então ele diz uau-uau para flores, árvores, potes, sacos, pessoas...
- cuco: suco
- têti: quente
- coco: coco, ele já avisa que fez coco ou que soltou um pum
- boá: bolo
- biá: boneca
- neinnein: neném

Lembrei de mais algumas:

- alhô: alô e coloca o objeto no ouvido fazendo as vezes de telefone
- olhá: olá, diz quando chega a algum cômodo e nos encontra nele ou quando chegamos em casa
- bóa: bola
- uóuó: vovô/vovó
- tchu-tchu: são os controles do wii, sempre os pega e aponta para a televisão
- cáo: carro ou qualquer coisa com rodas, muitas vezes ele faz o barulho do motor!
- ião: avião
- Ísh: Ísis
- Piê: Pedro

E o Infante já não é mais aquele, agora ele anda prá lá e prá cá, com seus passinhos cambaleantes, suas mãos erguidas e sua risada gostosa. Anda e cai, anda e cai sem parar, mas quando cansa desse sobe e desce ainda dá aquela engatinhada linda que eu adoro, no melhor estilo macaquinho, capoeirista!

Ainda não perdeu o hábito de puxar os cabelos da gente, mas compensa com um beijo estalado e babado depois. O carinho ainda é digno de Maguila, mas ele está aprendendo. Continua faminto e leve como uma pluma, na curva está abaixo da média e até o momento demonstra que será peso pena! O futuro dirá!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

E o mal só o carinho torna puro e sincero

Eu já conhecia Mercedes Sosa assim, de ouvir falar, de escutar algumas canções na minha infância. Violeta Parra era um nome que me lembrava algo, mas não fazia ideia de quem fora. E então eu fui com minha família para a fronteira com o Uruguai, onde a cultura gaúcha é rica, onde os campos são verdes e o céu azul. Onde o vento sopra forte e o sol é celebrado diariamente como o milagre que é.

Nas últimas semanas, com inúmeros acontecimentos chatos no dia a dia, inclusive a doença dos filhos, eu senti saudades das músicas da Mercedes Sosa. Dentre elas, esta que trago abaixo me é especialmente cara, daquela lista que me faz verter lágrimas de emoção só de ouvir, principalmente a frase do título.

Porque na adversidade, seja ela qual for, podemos escolher o caminho da revolta e lá permanecer, ou podemos trilhar o caminho do aprendizado e da mudança. Mudar o olhar sobre fatos, depois que saímos de um turbilhão, pode ser enriquecedor enquanto amadurecimento, ou pode servir para constatar o óbvio: falta sentimento nas relações humanas, falta generosidade nas ações e palavras. E não falo somente dos outros. Falo de mim.

Agradeço, agradeço sempre a possibilidade de rever, revolver sentimentos e conceitos. E agradeço mais ainda quando saio de um período ruim ainda mais fortalecida na ideia de transformar o mundo. O meu.

Fazem dez anos que deixei um emprego numa multinacional, onde, nutricionista recém formada, fui responsável por uma unidade de produção de refeições pequena. Onde chefiava diretamente algumas mulheres. Algumas mães. Ah, se eu pudesse voltar no tempo! Minhas ações e palavras seriam diferentes. Tenho consciência da minha pequenez e falta de generosidade. 

Nunca mais revi aquelas mulheres, mas me arrependo todos os dias, desde que me tornei mãe, das vezes em que não fui solidária diante das adversidades que elas passavam para cuidarem de suas famílias, seus filhos pequenos. Na minha ânsia de ser uma "boa funcionária", ganhar quem sabe até uma promoção, esqueci o elemento humano, esqueci que estava deixando de lado a essência do que nos move: amor.

Não posso fazer nada sobre o que já passou, só pelo que está por vir. E ainda bem que o novo sempre vem, e que cada vez mais, devido à família que tenho, vou me aproximando de mim mesma, da minha essência, que foi feita para o amor, para o carinho, para a generosidade.

Deixar as amarras dos conceitos egoístas que vamos atando aos nossos braços ao longo dos anos é, de fato, libertador. Meu olhar sobre fatos dos dias vai deixando de lado o linguajar felino, salvo quando minha família e aquilo que acredito ser o melhor para ela é atacado. Viro bicho, ou melhor, sou bicho. Humano.

Então, nesta véspera de feriado, deixo esse vídeo da Mercedita e sua voz capaz de me suscitar os melhores sentimentos nesta canção: Volver a los diecisiete. Poema de Violeta Parra.




quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sobre meninos e meninas


Será que somos definidos pelo que carregamos entre as pernas?

Faz algum tempo, eu estava com o Pedro no colo, ainda pequetito, depois de amamentá-lo, olhando seu rosto angelical, sentindo sua pele aquecida e macia, admirando o brilho nos olhos e o sorriso quase banguela. Ele era praticamente igual à irmã na mesma fase.

Os dois, desde que nasceram, são tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo! Eu costumo dizer que as diferenças entre eles, genuínas, são as biológicas e as de comportamento não vinculadas a questões de gênero, estas últimas socialmente construídas e reforçadas geração após geração.

Meus dois filhos queriam estar no colo todo o tempo. Meus dois filhos mamavam todo o tempo, um mamava mais forte e mais rápido, outro mais demoradamente. Meus dois filhos acordavam de madrugada e dormiam melhor quando dormiam comigo, na mesma cama. Um deles já dorme dez horas seguidas, o outro ainda acorda no meio da noite. Meus dois filhos são muito curiosos, gostam de fuçar em tudo, abrir gavetas, espalhar coisas pela casa, escalar cadeiras, mesas e sofás. Um deles é mais facilmente tirado de uma atividade não conveniente ou perigosa, o outro protesta veementemente. Meus dois filhos gritam. Meus dois filhos choram, mas de um as lágrimas escorrem aos borbotões desde que nasceu. Meus dois filhos sorriem. Muito. Meus dois filhos querem colo. Muito.

Naquela tarde, lá atrás, com o Pedro no colo, eu não pude deixar de divagar naqueles minutos pós amamentação, que a construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, menos machista, menos misógina, mais libertária, menos escolarizada, mais natural, mais consciente, menos consumista, menos egoísta, menos prepotente, começa, invarialvelmente, em casa. Na minha. Na sua.

Um homem já foi um bebê, já foi carregado no colo e já teve exatamente as mesmas necessidades que uma mulher na mesma fase. Bebês, quando vestidos de forma neutra, são facilmente confundidos em seus gêneros. A experiência de ter uma menina e um menino em casa só me mostra, cada vez mais, que os meninos não nascem amando carrinho, futebol, brincadeiras de luta. Os meninos, só pelo fato de serem meninos, não são mais ágeis, mais articulados, mais exploradores, menos dados aos afagos e carinhos, mais fortes, menos emotivos. Eles podem ser tudo isso, mas não o são apenas pelo fato de serem meninos.

As meninas, por sua vez, também não nascem amando bebês, panelinhas, bonecas barbie, maquiagem, rosa, roupas. Não são mais dadas a afagos e carinhos, não são mais emotivas, menos ágeis, mais cuidadosas, mais calmas. Elas podem ser tudo isso, mas não o são apenas pelo fato de serem meninas.

Meu filho tem hoje um ano e três meses. O tempo vai passando e eu vou percebendo que ele é uma pessoa com muitas características do mundo dito masculino e outras tantas ditas do mundo feminino. Isso me faz crer ainda mais que características comportamentais são inerentes à pessoa e não ao sexo dela. Se as crianças forem deixadas livres de nossos preconceitos enraizados em décadas de uma educação altamente escolarizada na padronização de indivíduos, na divisão de gêneros, na disciplina massificante, no pensar amplamente conduzido a ideia de se ajustar à sociedade, mesmo que para isso haja a necessidade de se anular enquanto indivíduo, essas crianças, já adultas, transformarão o mundo. Para melhor.

Mas não é assim que é. Ainda não. Ainda não todo o tempo. Todos os dias nós, e o mundo a nossa volta, reforçamos comportamentos encaixados em listas de padronização de personagens. O menino recém nascido nem senta ainda, mas já é estimulado a gostar de futebol, a usar camisetas do time preferido, ganha dúzias de carrinhos e brinquedos de encaixe e lógica. Maiorzinho, ao iniciar as primeiras explorações, não faltam elogios a sua capacidade de locomoção, a sua aventuras sobre móveis, embaixo de mesas e arrastando tudo e qualquer coisa pela casa. Se o menino anda, corre, grita, sobe em árvore, explora regiões antes não conhecidas, tudo certo, ele só está sendo menino. Está entrando no padrão, no conceito idealizado e esperado por todos nós. Ele vai seguir o caminho certo, seguro.

Mas pobre do menino que age de maneira não adequada, que demonstra curiosidade sobre objetos, cores e utensílios que não deveriam pertencer ao seu mundo idealizado. O que ele recebe são reprimendas, olhares enviesados, conceitos machistas. E os meninos aprendem bem e rápido que, para serem aprovados, precisam entrar no esquema, no padrão. De uma hora para outra, deixam de lado o campo da espontaneidade, dos sentimentos, das experimentações e se adequam ao mundo preto e branco (e azul) e másculo onde irão habitar.

Se isso acontece com meninos, não é diferente com meninas. E essa fase eu vivo intensamente hoje. Minha menina está cheia desses conceitos na sua cabecinha de quatro anos. Ela me pede esmalte, maquiagem, batom. Diz que só gosta de rosa (mas sua roupa preferida é amarela) e constantemente busca reforçar o que ela, enquanto menina, pode fazer. Diz não gostar de determinada peça de roupa porque não é rosa e meninas usam (do verbo tem que usar) rosa. E se preocupa não apenas com ela, mas com o irmão. O irmão pode fazer o que ela faz? E eu respondo que eles podem tudo que quiserem, mesmo sabendo que isso não é verdade. Mesmo sabendo que ser livre e desescolarizado - e ser assim não envolve estar fora da escola, tenho entendido isso cada vez mais - exige um preço alto que eles, enquanto crianças, não podem pagar.


sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Sonho

Eu adoro música. Todas. Qualquer ritmo, obviamente que não ouço as vulgares, as mal educadas, as que falam mil vezes para eu requebrar até o chão.

Eu creio que devo essa minha fascinação por (boa) música a minha mãe. Quando eu era pequena lembro muito bem de mim e da minha irmã querendo assistir ao "Xou da Xuxa" na televisão no sábado pela manhã e  ela, a minha mãe, xispar com a gente da sala porque ela queria ouvir seus discos de vinil. Saíamos amuadas e entre uma brincadeira e outra ficávamos ouvindo as músicas dela. Lembro muito de Roberto Carlos, Belchior, Oswaldo Montenegro, Kleiton e Kledir, RPM, Legião Urbana, Cazuza, Lobão, discos dos temas das novelas.

Eu não sei vocês, mas eu sou daquele tipo de pessoa que se envolve com a música, que sente arrepios na espinha quando a música penetra minha alma, que já foi chorando, no carro, de Joinville a Jaraguá do Sul, ouvindo Djavan, porque estava com saudades da minha irmã e eu ouvia uma música que falava do azul. Minha irmã adora azul. Também já chorei de indignação ouvindo Gonzaguinha e gritando que a gente não tá com a bunda na janela pra passarem a mão nela. Não, a gente não tem cara de panaca. Mas tem gente que pensa que a gente tem, não é mesmo?

Quando estava grávida da Ísis, ainda morando em Joinville, eu e marido fomos até São Bento do Sul quando eu estava com oito meses de gestação porque eu estava pesada, cansada e queria uma piscina (#grávidaefresca). Nos hospedamos num hotel que tinha piscina quente. Durante a noite, ligamos a televisão e estava passando o show de uma banda portuguesa. Sem saber quem, como, por quê, aquelas músicas me prenderam e eu não consegui deixar de assistir a apresentação até o fim. Deitada no ombro do amor da minha vida, esperando minha primogênita. Completude me definia naquele momento.

Depois a vida ficou um tanto corrida e eu dei lugar às músicas infantis por algum tempo. Viciei em boas bandas e músicas infantis. Até que um dia eu resolvi apresentar as minhas músicas aos meus filhos, como minha mãe fez comigo um dia.

E foi neste momento que eu redescobri aquela banda portuguesa de antanho (uhuuu, ora pois): Madredeus. Vício total nos arranjos musicais e na voz maravilhosa da Teresa Salgueiro. Ouço todos os dias e hoje vou deixar para vocês relaxarem e sentirem arrepios na espinha nesta sexta feira, uma bela canção, que fala de amor, de sonhos, de simplicidade e felicidade dos pequenos momentos. O Sonho, Madredeus:

Quem contar
um sonho que sonhou
năo conta tudo o que encontrou
Contar um sonho é proibido
Eu sonhei
um sonho com amor
e uma janela e uma flor
uma fonte de água e o meu amigo
E năo havia mais nada...
só nós, a luz, e mais nada...
Ali morou o amor
Amor,
Amor que trago em segredo
num sonho que năo vou contar
e cada dia é mais sentido
Amor,
eu tenho amor bem escondido
num sonho que năo sei contar
e guardarei sempre comigo
Uma janela, uma flor, uma fonte de água e o meu amigo. E não havia mais nada.