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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O médico e a síndrome do dentista mergulhador

Vocês já assistiram ao desenho Procurando Nemo?

Eu já assisti algumas vezes. A primeira vem em que o vi ainda nem sonhava em ser mãe. Meu marido havia viajado por alguns dias e eu passei na locadora para ver todos os filmes que eu gostaria de assistir, mas que ele não tinha vontade de ver comigo. Desenhos animados eram alguns deles.

Cabe ressaltar que hoje, pelos filhos, ele assiste a vários desenhos animados. Re-pe-ti-da-men-te! Não posso deixar de sentir uma certa satisfação sarcástica com isso. :)

Mas voltando ao Procurando Nemo...

Semana passada minha filha pediu para vermos esse desenho novamente e uma cena me chamou a atenção: a cena em que o dentista mergulhador retira o Nemo das redondezas do coral e o leva num saco plástico para seu aquário particular.

Ao falar sobre o peixinho a um paciente ele explica algo como isso: o pobrezinho estava morrendo no coral e eu o salvei.



No mesmo instante eu me lembrei dos médicos com quem tive a oportunidade de conversar sobre o nascimento do Pedro - o atual pediatra dele é um deles - e alguns médicos que se manifestam em entrevistas sobre parto natural, principalmente o domiciliar.

Em todas as oportunidades eu ouvi diversas falas sobre os muitos problemas relacionados com o parto normal, desde risco de morte até traumatismos e problemas psicomotores. O médico e a medicina estão ali para salvar aquela mulher e aquele bebê desses males.

Eu, como uma pessoa apaixonada pelo assunto e estudiosa do parto desde o nascimento da minha primogênita, entendo perfeitamente essa postura médica, principalmente em obstetras e pediatras. Durante sua formação médica eles passam anos da vida aprendendo sobre as anomalias, sobre tudo o que pode dar errado -  e dá algumas vezes - durante o evento parto.

Em todas as vezes, a fala que mais me chama a atenção é o medo que eles sentem de não poder controlar o parto. O parto é um evento imprevisível, ainda que possa gozar de alguma previsibilidade. O parto é algo que acontece no corpo da mulher, interno, silêncio, penumbra.

Então, diante de toda essa incerteza, ainda que se saiba através das evidências científicas que cerca de 85% das mulheres são gestantes de baixo risco e teriam seus filhos saudavelmente sem intervenções, o médico não consegue simplesmente observar, acolher, assistir. Ele tem que agir. E na sua ação, tal qual o dentista mergulhador do desenho do Nemo, acaba piorando uma situação que estava sob controle e que terminaria bem, sem a necessidade de intervenções.



Caso o dentista mergulhador fosse um bom observador e tivesse a paciência de contemplar algo que ele desconhecia -  a vida marinha no coral - muito provavelmente ele teria visto o pequeno Nemo, após sua crise de afirmação de independência, retornar para perto do pai, no coral. São e salvo. O pai lhe daria uma bronca por ter se afastando e fim da história.

O que vimos no desenho, porém, foi a ação do dentista. Uma intervenção no curso natural dos acontecimentos, uma péssima observação sobre o que estava a sua frente. Ele não fez por mal, acreditava com todas as suas forças que estava salvando aquele peixinho da morte!

O dentista, tal qual  médico intervencionista, acredita que está agindo em prol do bem estar. Mas, na maioria das vezes, está salvando alguém que não precisa ser salvo. Os médicos acreditam piamente que salvam as mulheres e seus bebês quando agem de forma intervencionista, sem a menor necessidade.

No caso do pequeno Nemo, a intervenção do dentista deu origem a uma jornada perigosa de seu pai para encontrá-lo. Felizmente, tudo acabou bem.

No caso das mulheres que sofrem intervenções desnecessárias, a jornada é igualmente perigosa e pode terminar com a morte da mãe, do bebê, ou de ambos. Felizmente, em muitos casos, tudo termina bem.

Mas e quando não termina?

O obstetra humanizado Ricardo Jones, em seu livro Memórias de um Homem de Vidro, narra uma cena de parto que acontece no Centro Obstétrico e que, segundo ele, é um divisor de águas na sua atuação médica de assistência ao parto.

No fim, quando ele se encontra sozinho na sala onde uma mulher pariu sem perceber sua presença, como se ele fosse feito de vidro, uma enfermeira lhe pergunta: Já pensou o que aconteceria se o senhor não estivesse por perto?

E ele responde para si mesmo que provavelmente aquela mulher teria seu filho com maior tranquilidade.

Nesses dias em que todas as pessoas intimamente ligadas à causa da humanização dos nascimentos no Brasil estiveram mobilizadas devido à intervenção da justiça durante o trabalho de parto de Adelir, na cidade de Torres-RS, esse capítulo do livro do Dr. Ric Jones não me saía da cabeça.

E se não tivesse acontecido essa intervenção judicial?

Muito provavelmente Adelir teria parido com mais tranquilidade. Talvez a cesariana estivesse mesmo em seu caminho, já que a maioria dos obstetras hoje não sabe assistir um parto, apenas realizar cirurgias.

Mas assim como a intervenção do dentista mergulhador deu origem a uma jornada de auto conhecimento, de superação de medos e de fortalecimento de vínculo, quem sabe as intervenções desnecessárias pelas quais passam diversas mulheres durante o trabalho de parto Brasil afora, com Adelir representando o ápice da violência obstétrica no Brasil, não saiamos todas mais fortalecidas em nosso vínculo com nosso corpo, que inclui a escolha da via de parto.

Eu vivi a minha jornada em busca de um parto digno, respeitoso, seguro, íntimo. Tive duas oportunidades de parir nessa vida. Trilhei meu caminho e durante esse percurso tive muita ajuda. Felizmente me cerquei de pessoas que pensavam como eu, afastei aquelas que não entendiam minhas escolhas. Para minha sorte, a vida me levou para longe de Torres-RS, minha cidade da infância. Mas eu poderia ter sido Adelir.

Como você deseja parir quando for a sua vez?

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Percebendo o parto como marco de transformação


Eu sei que falar de parto é um assunto delicado. Eu, no começo da minha vida na blogosfera, li muitos artigos sobre parto. Alguns considerei bem agressivos (hoje já não penso mais assim), mas a verdade é que todos eles foram importantes na desconstrução da imagem que eu tinha sobre gestar e parir no Brasil, gestar e parir no nosso sistema obstétrico.

O que eu não sabia naquela época era que o processo de busca pelo direito de parir com respeito e dignidade também seria um processo de auto conhecimento. Mais ainda: seria um processo de quebra de paradigmas, de desconstrução de teorias apreendidas pela minha vida afora.

Se você, como eu, está na casa dos trinta anos, há uma grande possibilidade do seu nascimento ter sido por via vaginal, dentro de um ambiente hospitalar e repleto de intervenções.

Se você tem menos de trinta anos, então é muito provável que você tenha chegado ao lado de cá da vida através de uma cirurgia de extração fetal: a cesariana. Hoje, mais da metade dos nascimentos brasileiros são feitos através de uma cirurgia. Planos de saúde potencializam esse número para quase a totalidade dos nascimentos.

Neste ponto do texto vamos esquecer um pouco as vantagens e desvantagens, os prós e contras. Não é disso que quero falar hoje.

Hoje eu quero te propor uma conversa sobre como o parto, esse evento fisiológico e da sexualidade feminina, pode ser um marco de transformação na sua vida, um agente potencializador da sua humanidade, da sua evolução como ser humano e, também, da sua própria visão do feminino, da sua feminilidade.


Eu sou uma mulher comum. Nasci de um parto vaginal hospitalar cheio de intervenções. Venho de uma família de mulheres que, em teoria, não conseguem ou não podem parir. Ou ganham seus filhos com muito sofrimento.

Em determinado momento eu quis romper com esse estigma. A partir dessa decisão, minha maneira de enxergar o mundo nunca mais foi a mesma. Então, a partir desse ponto, eu só posso te dizer uma coisa: se você está satisfeita com a maneira como você vê o mundo, se você acha que tudo está onde deveria estar, ou se você acha que você, uma mulher, uma simples mulher, não pode fazer nada para mudar a sua vida, abandone esta reflexão agora. Paramos aqui e seguimos juntas em outras esferas.

Mas se você seguir, tenho certeza que você será capaz de enxergar o parto, não como um flagelo feminino, um flagelo impingido por ninguém menos que Deus, veja bem; tenho certeza que você enxergará o parto para além do evento fisiológico que ele é. Um véu cairá e você entenderá alguns dos motivos pelos quais o parto é um agente potencializador da vida, para além da possibilidade de trazer um filho à luz!

Todos nós queremos buscar o melhor para nós, certo? E para além de nós mesmos, queremos sempre o melhor para aqueles que amamos. Para conseguirmos esse melhor fomos dotados da capacidade de raciocínio e, porque não, do instinto.

Então quando eu estava gestando minha primeira filha, meu instinto me dizia que parir por via vaginal era o melhor. O raciocínio fez com que eu fosse em busca de informações. Achei muitas na internet. Tive convicção de que faria todo o meu possível para ter um parto normal, caso não houvesse riscos.

E como eu estava dentro da estatística que preconiza que cerca de 85% das mulheres são gestantes de baixo risco, eu tive um parto normal hospitalar, com todas as intervenções de praxe, inclusive uma episiotomia indesejada, um parto talvez melhor do que o da minha mãe, porque tive analgesia sem complicações.

E depois do parto, uma constatação: parir assim é uma guerra. Uma inquietação surgiu, mas eu ainda não havia retirado totalmente o véu.

Assim como no parto, minha maternidade nos primeiros meses após o nascimento da minha filha foi cerceado por informações desencontradas, teorias sem fundamento e foco no desapego, na independência daquele bebê que nasceu para ser apegado, acalentado, cuidado e protegido.

Aquela inquietação inicial se transformou em desejo de fazer diferente. E numa segunda oportunidade eu não me deixei enganar ou esmorecer. Eu busquei o melhor para mim e para o meu bebê.

Após o parto, impossível não me embriagar no coquetel do amor, que nos inunda as veias e nos faz sentir capazes de transformar o mundo. O amor e sua química são mesmo agentes de mudança poderosos! Eu me senti uma guerreira, eu havia lutado e vencido, eu havia vivido o melhor e nada menos que isso me contentaria depois.

Por desejar o melhor eu fiz escolhas diferenciadas, não nego. Escolhas apoiadas. Sem apoio, nada se consegue.

Após o parto eu nunca mais me conformaria com o senso comum, com a vida seguindo seu curso sem que eu percebesse os dias passando, com os dias e noites surgindo e sumindo sem que eu estivesse realizando um propósito. O tempo fluindo, sem que eu estivesse plenamente consciente da sua importância.

Com o processo de escolha do parto humanizado e domiciliar, veio também o pacote bônus: amamentação em livre demanda, prolongada, visando ao desmame natural; criação com apego e o desejo forte de educar sem castigos, sem gritos (ainda falho aqui, como vocês sabem) e educar com foco na legitimidade infantil, legitimidade de seus anseios, necessidades, desejos, incapacidades.

E para além dos filhos, o processo de parir também me empoderou de maneira tal que eu passei a ser importante em todo o processo. Eu passei a legitimar minhas vontades, minhas não vontades. Passei a ser agente da minha transformação, passei a viver com consciência de mim mesma.

E é sempre importante lembrar: não quero dizer como você deve viver a sua vida. Eu não tolero que façam isso comigo. Eu quero que você saiba que, se algo te incomoda, se você sente que algo está fora do lugar na sua vida, é porque está. E você sempre pode mudar isso.

E, também é sempre bom dizer: eu não quero que você faça as minhas escolhas. Eu quero que você faça as suas escolhas! E eu e você estaremos trilhando o nosso caminho, seguindo a nossa jornada, vivendo a nossa verdade. E não a verdade que nos dizem para viver.



segunda-feira, 31 de março de 2014

Ser só mãe: existe isso?

Um dos textos mais lidos aqui do blog é o "Escolinha X Babá", escrito no ano de 2011. Nele eu contava um pouco das minhas experiências com uma creche, onde minha filha ficou dos 6 aos 15 meses, e com uma babá, dos 18 meses até nossa saída de SVP-RS, quando ela já estava com quase 4 anos.

A quantidade de pessoas que chega a esse texto através da busca pelo termo "escola X babá", "creche X babá" demonstra a realidade de boa parcela das mulheres brasileiras: o retorno ao trabalho após o término da licença maternidade.



Eu vivi essa realidade por duas vezes e ainda me lembro como doíam os momentos de separação dos meus bebês. Eu ainda me lembro daquele sentimento de inconformidade com a necessidade de ter que me separar dos meus filhos para trabalhar.

Eu venho de uma família de mulheres que trabalham. Eu nunca fui educada para casar e ter filhos, mas sim para estudar, trabalhar, ser independente. Casamento e filhos era algo desejado, mas nunca foram um objetivo. Aconteceria, se fosse para ser assim.

Já estudo e trabalho não. Eram um objetivo. Terminar a escola, entrar para a universidade, formar-se, trabalhar. Não depender do marido. Nunca depender.

E então chega a maternidade. A fusão que acontece com o bebê que acaba de chegar é algo que nos tira o pé do chão. Nos arranca de nós mesmas. Muitas dizem até que perdem sua identidade.

Para mim também aconteceu essa perda de identidade. O meu objetivo era garantir que aquele pequeno ser teria tudo o que precisasse, quando precisasse. Garantir o bem estar da minha filha (e depois do meu filho) era tudo que o meu ser conseguia fazer.

Mas...existe um final para a licença maternidade, muitas nem mesmo possuem esse período. E muitas de nós mulheres abandonamos nossos empregos nesse momento. Outras tantas o abandonam já na gestação. Outras, como eu, não querem deixar seu trabalho, mas também não querem deixar seus filhos - surge aí um dilema que acompanha boa parte das mães que trabalham fora de casa. E algumas estão onde desejam estar. Sentem-se ajustadas.

O mundo surge com a solução para as mães que, como eu, não querem deixar seus filhos, mas querem voltar ao trabalho: terceirizar. Seja numa creche, seja com uma babá, a ordem que recebemos é deixar nossos filhos com terceiros. A regra é clara: se você quer trabalhar, terceirize. Se não quer terceirizar, abandone seu trabalho. Afinal, o que mais pode ser feito, não é mesmo? Você não tem o direito de trabalhar E maternar nos dias de hoje.

Se antigamente não se ouvia falar em creches e as poucas que existiam eram muito mal vistas, atualmente as creches ou escolinhas são altamente recomendáveis como solução para nossa ausência. Das mais amplas e modernas às mais alternativas, ou que tentam imitar o ambiente familiar, passando por pedagogias e filosofias diferentes, o que todas querem é que deixemos nossos filhos ali e saiamos tranquilas para ganhar o mundo cão que nos aguarda. Afinal, precisamos pagar nossas contas, precisamos garantir, mais uma vez, que nossos filhos terão tudo que quiserem, tudo que precisarem. Precisamos garantir nossa independência. Será mesmo?

E se você vai deixar seu filho num ambiente hostil com pessoas estranhas, para que eles passem de 8 a 12 horas por dia longe do ambiente familiar e dos pais, lembre-se: sinta-se segura! Afinal, se o seu filho sofre na escola, não é porque é totalmente antinatural ele estar longe da família e do ambiente familiar, é porque a sua insegurança de mãe passa para ele! Mas não se preocupe! Ele chora só enquanto você está lá, depois que você sai ele chora mais uns cinco minutos e para! Fique tranquila!

Quem sabe você tenha escolhido deixar seu filho com uma babá. Eu já deixei. A maior parte do tempo, foi uma ótima experiência, muito melhor que a creche. Mas ainda assim há contras. Se a babá possibilita um cuidado mais afetuoso, presencial, constante e no ambiente familiar, ela também pode ser um problema, simplesmente porque não é o pai ou a mãe. A relação que se estabelece com uma babá e uma criança geralmente não visa ao crescimento e ao aprendizado dessa criança, mas sim, apenas ao carinho e à aceitação. Pode ser uma boa ideia nos primeiros meses, ou nos primeiros 2 anos. Mas e depois?

 E sempre haverá o risco de não dar certo. A última babá que eu tive chegou e foi embora em 30 dias. A partir dali eu jurei que nunca mais iria deixar para terceiros aquilo que me era mais precioso. Nem que fosse necessário recomeçar, ou revolucionar meu micro mundo.

Mas, antes disso, cansada dessa discussão e dessa falsa competição que o mundo jura que existe entre mulheres que trabalham em casa e mulheres que trabalham fora de casa (eu sei, essa rixa pode ser bem real muitas vezes, mas não caia nessa armadilha de ver outra mulher como sua concorrente, como sua rival), eu escrevi outro texto, ressaltando que nós mulheres não deveríamos ter que escolher entre nossos sustento e nossa maternidade. Que deveríamos poder exercer com qualidade as duas coisas, as duas facetas de nossa existência. Afinal, ninguém quer uma vida pela metade - ou nem isso - todos nós desejamos uma vida integral. Ninguém é só (e esse só, notem que sempre vem de forma pejorativa) mãe. Ninguém é só profissional. Ou esposa. Ou só qualquer coisa. Somos seres multifacetados. E devemos querer viver bem todas as nossas facetas. Não deveríamos nos contentar em viver menos. Afinal nossa vida deve valer alguma coisa para além do nosso cartão de crédito e do nosso financiamento da casa própria. Sim ou não?



E hoje eu estou numa fase nova. Estou numa fase que muitos creem ser a de só mãe. Só que eu nunca serei só mãe, apenas mãe. Serei mãe. Sempre, desde 2009. Mas eu quero ser outras tantas coisas. Não me contento em ser menos. Quero ser tudo que eu tenho o direito de ser.

Olhe para seus filhos e filhas: vocês não acham que eles podem ser tudo o que quiserem ser?

Eu estou trilhando. E, como tenho aprendido em minhas aulas sobre empreendedorismo -  área que sempre amei, desde a época em que trabalhei numa empresa júnior de nutrição - o sucesso não é o final da jornada. O sucesso é a jornada! O caminho, a trilha, o prosseguir. Por isso, ninguém será pleno sendo só isso ou só aquilo. Não há caminho percorrido, mas sim caminho a percorrer e aquele que já ficou para trás.

Escola, babá, creche, família. Onde deixar nossos filhos? Não há resposta certa aqui, há aquela resposta que vai te satisfazer por muito ou pouco tempo. Não se iluda: os filhos precisam dos pais. Tenha isso em mente ao fazer escolhas. Nenhum caminho "está escrito". Somos todos protagonistas de nossas vidas.

E, no lugar de pensar que existe apenas uma solução, pense que somos nós quem exigimos ou não soluções para nossos dilemas. Se não o fizermos, a vida seguirá, e trilharemos caminhos que não são nossos.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O início do querer: uma nova abordagem para os meus dilemas antigos

Céu azul com poucas nuvens na SVP de fevereiro de 2011.

Hoje eu vou reblogar um texto publicado em fevereiro de 2011 - Os diferentes momentos do querer. Lá atrás, nesta época, a Ísis ainda não havia completado 2 anos, o Pedro ainda não era um desejo real, nós estávamos morando no sul do sul, eu havia começado a experiência com a babá há pouco mais de 2 meses e ensaiava mudar mais concretamente minha maneira de enxergar muitos atos e pensamentos meus, como mãe.

Do questionamento surgiram as dualidades, duas forças e formas de encarar situações da vida pós filhos. Aquilo que eu achava que seria o meu caminho, e por isso o certo para mim, e aquilo que o meu coração começava a gritar.

A necessidade de mudança começava a dar seus sinais confusos, sinais esses que ficariam ainda mais intensos meses depois, quando eu finalmente carregaria o Pedro no ventre.

Eu tenho carinho por este texto. Nele é fácil retratar a mãe que eu havia sido até então e ele marca o começo da minha rebeldia com o caminho pré fabricado.

Engraçado que eu falei do desejo de pedir uma licença remunerada. Um desejo bem tímido ainda, mas que hoje se tornou realidade.

Interessante ler que eu chamei a Ísis de minha pequena infante! Não lembrava de tê-la chamado assim, achei que era um jeito carinhoso e exclusivo de chamar o irmão.

E eu falo da cama compartilhada! Nossa, como as coisas mudaram neste ponto! No final daquele ano eu estaria comprando uma cama maior para justamente poder fazer cama compartilhada com meus filhos. Fiz muito com a Ísis logo que o Pedro nasceu. Fiz muito com o Pedro (na verdade, ele mal dormiu no berço) e ainda faço hoje. A diferença hoje é que eles aparecem na minha cama no meio da noite! É o famoso motim da madrugada! :)

O dilema creche-babá dava seus sinais mais uma vez. Dois anos depois eu passaria por uma situação muito difícil no meu ambiente de trabalho que teria como tema central essa dupla. No final, nenhuma das duas opções me satisfazia. Cansada de não escolher, resolvi fazer a escolha de não ter nenhuma dessas duas opções e assim será!

A solidez com que eu fui galgando os degraus dessas mudanças de paradigma só foi possível graças à blogosfera materna. Hoje eu percebo que há muitos brios, muitas reclamações, muitos dedos em riste. Mas de verdade, eu não acredito nisso. Eu acredito na construção de conhecimento coletivo. O que você vai fazer com esse conhecimento é problema seu. Mas ele está aí. E ainda é gratuito!

Então, se tiverem um tempinho, leiam esse texto e depois me contem sobre as mudanças que vocês sentiram em vocês após a entrada na blogosfera materna: afinal, vocês se sentem ajudadas por esse círculo de mulheres ou não?

PS: Saudades de muitos blogs antigos e extintos, como o Mamãe Antenada! Como esse blog não existe mais, você não conseguirá ler o maravilhoso texto da Adriana, que me inspirou a escrever o texto abaixo. :(

***

Os diferentes momentos do querer

Um tempo atrás eu li este texto da Adriana Guimarães no blog da Pérola e fiquei cativada pela maneira como ela descreve uma experiência que eu, antes radicalmente contra, obviamente antes de ser mãe, hoje admiro e apoio quem consegue, ainda que tenha plena consciência de que esta prática não se encaixaria no meu dia a dia como rotina.

Acho que vivemos essas dualidades durante a maternagem desde que nos descobrimos grávidas. Aliada à emoção do teste positivo, vem a insegurança e o medo do novo (ser) que está por vir. São dois sentimentos antagonistas e complementares, como todos, ou quase todos, os outros sentimentos que teremos dali para frente.

Eu costumava me achar bem resolvida antes da minha primeira filha (digo primeira porque sei que há ainda mais um ou dois filhos me esperando em algum lugar, mas não estou grávida) nascer. Decidia algo e realizava, simples e aritmética como uma boa planilha de excel consegue (?) ser.

Depois da maternidade eu vivo em conflito, como no começo do aleitamento, quando eu não podia me ausentar de casa por mais de 2 horas, passando a me sentir enjaulada, solitária; mas em contrapartida não podia ouvir falar em dar mamadeira para a Ísis que virava onça e saía de dedo em riste do marido primeiro que me sugeria tal coisa! Ou, ainda sobre aleitamento, quando ia dormir implorando para que a pequena dormisse a noite toda porque estava cansada, acabada mesmo de tanto levantar nas madrugadas para dar de mamar de 2h em 2h, mas ao mesmo tempo sempre sorria quando minha filha mamava com vontade, de fazer barulhinho de gut-gut e me pegava pensando que seria muito bom se eu conseguisse manter a amamentação até meus peitos baterem no pé.

Da série conflitos ainda posso falar do trabalho x dedicação exclusiva! Na época da licença maternidade me pegava pensando que seria bom voltar a trabalhar, colocar a cria na escolinha, ter mais tempo para mim, falar de outras coisas que não filhopumcocoxiximamadagolfadapapinhadurante todo o dia; mas, OH!, eis que crio um blog para falar justamente disso nos meus intervalos do trabalho e ainda me pego cogitando seriamente em pegar licença não remunerada por anos a fim de grudar na filhota durante todo o dia!

A dualidade escolinha X babá também rondou, ronda e rondará a minha mente durante o período antes da escola pré-primária. Desejo de que ela se socialize, que me dê um tempo, que aprenda a falar gato em inglês só para eu dizer "ai que lindo!", ainda que ela fique mais doente, que fique fora de seu habitat, que tenha que aguentar 10 professoras em trocas de turno e colegas mil birrentos e de nariz escorrendo como ela; em contrapartida ao medo de que ela fique com uma louca sádica, ou uma gente boníssima que fala errado e vai ensiná-la a dançar Rebolation e falar mortandela, mas que vai pegar no colo, colocar para dormir na sua caminha, dar a comidinha fresca que eu compro toda semana...

Terminando, copio e colo o final do meu comentário lá no Mamãe Antenada (porque apesar de eu ser totalmente contra chupinzar/copiar/repetir/falta de criatividade, também sou super a favor do reaproveitamento/citação/enaltecimento/reescrita com melhor abordagem:

"Essa história de "tem dias que quero isso" e "tem dias que quero exatamente o contrário" acho que faz parte da maternidade, porque ao mesmo tempo em que sentimos saudades do nosso EU, da nossa vida mais privada, também sabemos que essa fase em que somos os eternos companheiros e heróis de nossos filhos passa rápido, e então desejamos fervorosamente que dure, dure, dure!

  
Inspiração: http://mamaeantenada.blogspot.com/2011/01/cama-compartilhada-um-olhar-uma.html

terça-feira, 25 de março de 2014

Atividades com as crianças: como passar o dia todo com elas sem surtar (muito!)

Uma vez, num vídeo da Ana Thomaz (eu sei, sempre falo dela, mas é que admiro demais os conceitos dessa mulher), ela contava que algumas amigas não entendiam como ela conseguia passar o dia todo com as filhas pequenas, sem ao menos um meio período de escola para dar aquela folga.

Ela explicava que não era fácil mesmo, mas que ia ficando cada vez mais fácil com o tempo. E também dizia algo como: se não socializamos com nossos próprios filhos, nossa própria família, como fazer isso com os demais?

Na época eu não entendi toda a dimensão do ela dizia, muito menos o que diziam as amigas: como assim não conseguir ficar o dia todo com os filhos em casa?

Eu, que ficava fora de casa cinco dias da semana no horário comercial, sabia que queria muito ter mais tempo com os meus filhos e nunca, nunquinha mesmo seria capaz de desejar não estar com eles. Na minha experiência de então, a escola ou era uma necessidade dos pais ou era obrigatória. Nunca havia pensado na escola como uma maneira de fugir do convívio familiar.

E a gente deseja tanto uma coisa que ela acaba acontecendo, ou a gente acaba indo em busca do que deseja, sendo protagonista da própria vida, como diria a Ana (ó ela).

E cá estou eu com meus filhos o dia todo, todo dia, sem terceiros envolvidos nessa relação. Sem babá e sem escola. Sem empregada também! E como eu ando me virando com isso?

Com criatividade, desapego e senso de oportunidade!

Facilidades não há. O dia é árduo e se antes eu já achava que descansava no trabalho e trabalhava em casa, bem, hoje tenho certeza de que meu marido passa férias no trabalho e trabalha em casa. Já eu, estou sem férias por tempo indeterminado. :)

Há inúmeras vantagens no processo, mas é preciso estar de mente e coração abertos para a conexão, porque o mundo a nossa volta nos chama à distração. De nós mesmos, da realidade a nossa volta e muito constantemente dos nossos filhos.

Mas como conciliar tudo sem ceder à televisão sempre, sem ficar apático diante da vida, e ainda promover auto conhecimento e conhecimento dos filhos? Ah..., continue lendo.

O primeiro passo é exercitar o desapego. Desapega da casa arrumada, da louça lavada e do tão falado 5S. Em casa com crianças não há um lugar para cada coisa e muito menos cada coisa tem o seu lugar. O mundo infantil é muito dinâmico e não raras vezes eu canso só de acompanhar com os olhos tanta euforia pela vida (e pelos brinquedos espalhados em todos os cantos).

Você pode não desapegar, mas a chance de você estressar com muita frequência, como naquele dia em que meu Grilo Falante me visitou, será enorme. E em casa onde há muita exigência, muita briga e pouca brincadeira, pouca leveza, não há vínculo, pois não há um bom convívio.

A criatividade deve ser seu lema. Ela aliada ao senso de oportunidade fazem a dupla que vai te salvar o dia, e ainda promover momentos legais para você e os filhotes, quer ver? (Lembrando que eu tenho filhos com 4 e 2 anos).

Fazendo o almoço:

Essa é a hora mais crítica do dia na minha casa. Preciso de pelo menos 40 minutos com as crianças longe de mim porque não cozinho com eles ao meu redor por segurança. A brincadeira preferida no verão foi lavar os brinquedos no tanque! Nos apartamentos a lavanderia costuma ficar ao lado da cozinha. Colocar os pequenos para brincar de lavar os brinquedos no tanque disponibilizando detergente neutro e esponja garantem muitos e muitos minutos de sossego para você cozinhar sem precisar recorrer à televisão.

Mas já sabe: desapega, porque vai molhar, vai ensaboar tudo, eles vão ficar molhados. Sim, você terá trabalho depois, mas ao menos os brinquedos sairão limpos -  e a comida feita em 40 minutos!

Hora da ginástica com a mamãe!

Vamos malhar com as crianças? Essa brincadeira é altamente recomendada para quando eles estão bem irritados, com tédio mesmo, sem brincarem com nada direito.

Eu deito na cama e faço piruetas e cambalhotas com eles. Também brinco de "cair no buraco" colocando cada um na sua vez sobre minhas pernas levantadas (como num abdominal com pernas levantadas) e aí pergunto "você vai cair aonde?", quando eles respondem eu abro as pernas e eles caem sobre a cama. Risadas garantidas, pernas e abdômen malhados também!

Os campeões da "Buraco Airlines" são "princesa do gelo" e "país das maravilhas". :)

Outra brincadeira aprendi com minha irmã que fazia aulas de pilates. Coloco cada um na sua vez grudados nas minhas pernas dobradas e levanto, de maneira que eles fiquem de cabeça para baixo. Eles adoram! Agora já evoluímos e eles viram uma cambalhota no ar. A Ísis adora, o Pedro nem sempre. Radical!

O outro exercício aprendi com maridón. Coloco meus pés nos peitos deles e levanto segurando-os pelas mãos, jogando as pernas (e eles) de um lado para o outro como um avião.

E a última e mais pedida é pular na cama! Eles adoram. Variamos comigo ajudando com as mãos para eles pularem mais alto e comigo girando o corpo deles enquanto pulam, com as mãos.

Desapega da cama arrumada, desapega das molas...são pelo menos 60 minutos de diversão e atividade física!

Circuito na sala:

Essa é divertida e foi proposta pela Ísis. É basicamente fazer tudo o que as crianças gostam mas mamãe e papai não deixam!

- Pular do braço do sofá para o sofá (certifique-se de proteger a queda com almofadas, travesseiros)
- Pular do sofá para o chão
- Subir e descer de mesas e cadeiras
- Engatinhar debaixo da mesa

A hora do baile

Esta atividade é ótima para dias de chuva e tédio. Consiste em colocar uma música qualquer e dançar, dançar e dançar! Mas ó, nada de danças certinhas e coreografadas: dançar desengonçadamente rende muitas risadas! E o tédio vai embora!

Se os filhotes tiverem fantasias, é a hora de colocá-las. E você também pode caprichar no visual para entrar no clima. Só a arrumação já rende muitos momentos divertidos!

Gostaram das dicas?

E vocês, quais brincadeiras vocês costumam fazer com os filhotes em casa para fugir da televisão? Compartilha aí, que estou coletando ideias!

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